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Rendimento Básico Incondicional

Rendimento Básico Incondicional

O custo do Trabalho

O trabalho custa-nos muito.


O trabalho em Portugal continua a ser bom para o “preto”. É, em geral, entendido como uma degradação da existência. Noutras paragens os trabalhadores podem estar orgulhosos de viverem do trabalho. Em Portugal, isso é mais coisa de otários. Como dizia o nosso felizmente ex-Presidente da República, o desenrasca é uma boa característica dos portugueses. Isto é: fazem tudo o que for preciso para não organizar o trabalho, sujeitando-se às consequências: a vitória do chico esperto. Aquele que dá ares de ser importante e isso basta-lhe.


Quando o sistema se tornou insustentável começaram reclamar avaliações para tudo, como fazem na Europa, menos para quem dirige as operações. Para esses só mesmo o Ministério Público parece estar disposto a avaliar a legalidade das suas acções. Na Assembleia da República, na comissão de ética, ainda não sabem bem se lhes cabe avaliar politicamente a ética do trabalho de desviar fundos públicos para o sector privado.


O emprego é um privilégio. Trabalhadores em situação de pobreza técnica recebem subsídios do Estado para sobreviverem, na miséria. E ninguém reclama. Os desempregados são tratados como arguidos criminais e ninguém reclama. Trabalhadores são tratados como colaboradores para lhes negarem os direitos anteriormente reconhecidos aos trabalhadores, e há trabalhadores que acham bem: sentem-se mais livres.


Uma das características do país é o reduzido valor que tem o trabalho. Mas esse é um dos maiores consensos que existe, estando os sindicatos reféns desta auto-desqualificação do seu trabalho por parte dos portugueses. Apesar, sem dúvida, do arreganho dos sindicalistas, mais parecem os resistentes da aldeia do Asterix. Quem quer ser trabalhador? Todos preferem um emprego. Muitos o concebem como um privilégio. Como uma forma de estar envolvido nas redes de clientela que minam a sociedade pela inércia.


O Rendimento Básico Incondicional atribuído individualmente, como é regra, dispensará quem não quer trabalhar do fazer. E isso é uma coisa boa. Em vez de a maioria se levantar de manhã a pensar que vai ter de ir para o local de trabalho porque disso depende o seu almoço, todos poderiam fazer um exame de consciência e perguntar-se se querem continuar a sujeitar-se à tortura que é o trabalho em Portugal. E lá onde o trabalho for uma tortura, a libertação desses trabalhadores para uma vida digna, uma vida que valha a pena viver (que eu não sei qual seja mas que cada um terá que descobrir para si próprio), será um passo decisivo para que a sociedade portuguesa, no seu todo, passe a respeitar o trabalho: aquilo que será feito com gosto e disponibilidade para dar sentido à existência de cada um.


O valor monetário do trabalho está em baixa. Mesmo em Portugal que nunca foi alto. O valor monetário do trabalho depende, em grande medida, do valor moral, ético e político do trabalho para a sociedade. Por isso Portugal é dos países do mundo com maior diferença entre os rendimentos dos que ganham mais e dos que ganham menos, sendo os primeiros mais elevados que os seus congéneres de outros países, apesar dos resultados macro económicos serem dos mais miseráveis e que nos deixam na situação periclitante em que estamos.
Quando as crianças souberem que não precisam de trabalhar para sobreviver dignamente, com as suas famílias, no dia em que o RBI for política estabelecida, as escolas terão que apresentar o valor dos esforços, físicos e sociais, como forma de intervir no mundo, produzindo sentido para cada um em favor de todos. A arte aos artistas, a ciência aos cientistas, as técnicas aos tecnólogos, os serviços aos empreendedores, os trabalhos de rotina aos computadores e robôs, os cuidados sociais aos terapeutas, para que cada criança saiba que pode colaborar livremente com cada um desses sectores de actividade com a intensidade e o envolvimento que hoje está impossibilitado pelas relações de exploração do trabalho barato, obtido através da ameaça de exclusão social e aniquilação física por falta de meios para morar, vestir, alimentar-se que atinge directamente metade da população portuguesa actualmente.

 

António Pedro Dores
Professor Auxiliar com Agregação do Departamento de Sociologia e do
Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES/ISCTE-IUL)

Membro Activo RBI Portugal

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